sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Banda podre, ovo podre

Depois da absolvição do Renan...ainda vale esse retrato básico desse pedaço minúsculo - em todos os sentidos - do Brasil....

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

O país do crédito

Nunca antes nesse país houve tanta prosperidade. Se não para todos, ao menos para os agiotas que têm a bênção da lei e a adesão dos incautos e desesperados: basta ver a quantidade de portas abertas em ruas comerciais oferecendo empréstimos a perder de vista.
É a consagração do pode-tudo nestas plagas tropicais.

sábado, 25 de agosto de 2007

Educação, cuitelinho e poesia

Fechamos mais uma matéria sobre educação. Viramos a pauta e o resultado foi uma página sobre a reforma ortográfica. Na verdade, sobre a aparente desencanação com a reforma. Pouco se sabe de concreto sobre ela nas escolas - até porque não entrou em vigor.
E a julgar pelos projetos bacanas que encontrei, não faz diferença. Quando as mudanças tiverem de acontecer, alunos e professores vão assimilá-las. E ponto. Se final, quem sabe?
O que dá para saber e conhecer são iniciativas muito boas, como as que encontramos. Na EE Capitão Henrique Montenegro, em Bocaina, alunos fizeram um "Dicionário de Palavras Chiques".
Os verbetes, até agora:

Dicotomia
Enfatizar
Metamorfose
Misticismo
Mito
Incumbir
Inovativo
Pioneiro
Diminuto
Fluidez
Design
Humanóide
Inconciliável
Probabilidade
Ambigüidade
Hipérbole
Convescote
Aspecto
Ubiqüidade
Primogênito
Biltre
Recalcitrante
Concatenado
Sussurrar
Questiúncula
Ortodoxo
Miscigenação

Desconhece algum? Não vai encontrar o significado aqui. Faça como a galera da sexta série: procure.
E tem mais. Depois da entrevista, eles resolveram cantar "Cuitelinho", que diz tudo sobre poesia, afeto e a licença poética que faz da língua portuguesa a única a ter uma palavra como saudade.


quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Cantiga do Itororó

Sobre a indicação de leitura da coluna Toda Palavra publicada em 12.agosto:


Em versão mais moderna, esta é a letra com que é cantada pelas crianças brasileiras, enquanto formam uma roda ao redor de uma menina. Na terceira estrofe, o nome Maria/Mariazinha pode ser substituído pelo da criança que está no centro (ou fora) da roda. A última estrofe é cantada pela criança no centro da roda, substituindo o nome Chico pelo de qualquer outra criança escolhida para sair da roda e ficar na área central:


Eu fui no Itororó
Beber água e não achei
Encontrei bela morena
Que no Itororó deixei
Aproveita minha gente
Que uma noite não é nada
Se não dormir agora
Dormirá de madrugada
Ó dona Maria
Ó Mariazinha
Entrará na roda
E ficará sozinha
Sozinha eu não fico
Nem hei de ficar
Porque tenho o Chico
Que será meu par

O escritor Veríssimo de Melo, de Natal/RN, registra em sua obra Folclore Infantil (Editora Itatiaia Ltda., Belo Horizonte/MG, volume 20 da Biblioteca de Estudos Brasileiros, cerca de 1981) diversas variantes da letra, recolhidas em vários pontos do Brasil. No Ceará, por exemplo, uma variante da letra usa o nome Itararé.

Veríssimo de Melo relaciona Itororó com o ribeirão homônimo, palco de grande batalha em 6/12/1868 entre as tropas do Brasil e do Paraguai. Para isso, ele se baseia numa versão recolhida em Santa Catarina, em que aparecem os nomes do famoso general Pedro Juan Caballero e do major Moreno, que controlava a artilharia, impedindo a passagem da ponte de Itororó, provocando muitas mortes e assim ensangüentando as águas do ribeirão - daí a alusão de não se achar água para beber. O último verso seria uma reminiscência da frase latina "Veni, vidi, vinci" dita por Júlio César ao Senado de Roma. Esta é a versão catarinense:


Eu fui lá no Tororó
Beber agua e não achei,
Ver Moreno e Caballero
Já fui, já vi, já cheguei

O autor registra ainda que Frei Pedro Sinzig (O Brasil Cantando, Ed. Vozes, Petrópolis/RJ, 1938) comenta ter o compositor Luiz Heitor se surpreendido em notar que o motivo musical conhecido da ópera O Guarany, de Carlos Gomes, ser o mesmo desta canção, não sabendo dizer qual originou qual.

Para ler o original, clique aqui

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Maroni, o realista

De todo o imbroglio causado pelo acidente da TAM, poucas coisas falam mais do que a posição do empresário Oscar Maroni Filho, proprietário da casa noturna "de diversões masculinas" Bahamas (onde foi parar a consagrada e santificada zona, meu Deus?) e do prédio apontado como o provável causador de acidentes aéreos horrendos.
Com a palavra, Maroni: "Eu sou imoral, devasso, depravado, se você preferir, mas pago meus impostos e estou em situação legal".
Noves fora, há, claro, sombras demais na própria situação do prédio. Falhas no projeto urbanístico, dizem uns; situação irregular, apontam outros; risco aos pousos e decolagens em Congonhas, garantem terceiros.
O que fica, no entanto, é o realismo do empresário. Sim, ele vende erotismo. Não nega, aceita a pecha de depravado e qualquer outra, mas e daí? Quem são os sacrossantos que apenas após o acidente com o avião da TAM resolvem embargar a obra? Alguns anos com o prédio ali e nunca subprefeito algum apareceu, ninguém nunca ligou - ainda mais aparecer com equipe de tevê para dizer que vai lacrar o local.
Maroni faz e assume. E pronto. Ao contrário de muita gente que prefere faturar com a desgraça alheia.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Aprender, ensinar e aprender de novo

"Não dormi porque fiquei com dó”.

Esse foi o comentário de um aluno sobre palestra realizada havia poucos dias e surpreendeu menos pelo ineditismo e mais pela freqüência com que se ouvem frases desse tipo. Não é segredo que aumenta cada vez mais a distância entre as práticas escolares e a perspectiva e atitudes dos alunos. Mas afinal de contas, o que acontece? Onde está o ruído na comunicação entre professores e alunos? Há tantas teorias sobre o problema quanto propostas de solução, mas nenhuma parece dar conta de resolvê-lo.

Algumas pistas, no entanto, podem ajudar, como um caso ocorrido na Austrália: durante a aula, um professor admitiu não saber exatamente o que cangurus comem e se comprometeu a obter a informação para o dia seguinte. Um aluno disse não ser necessário esperar: ele poderia obtê-la “em instantes”. Provavelmente, acessaria a internet por meio do celular e além de um texto obteria um vídeo sobre o tema e, quem sabe, o compartilharia com outros colegas enviando o material em uma mensagem multimídia por correio eletrônico ou conexão sem fio.

Apesar disso, a escola continua sendo a escola. É onde o próprio aluno espera aprender algo útil, capaz de prepará-lo para o resto dos seus dias; é também local de interação social, onde ao lado de disciplinas básicas – língua, ciências naturais e matemática, ciências humanas – aprende-se a viver e a conviver com a diferença e a semelhança e a lidar com elas. É razoável imaginar que o problema não está em “o quê” (o conhecimento), mas no “como” se ensina.

Não é o caso de sair por aí queimando carteiras e lousas, distribuindo notebooks a cada aluno e liberando geral o uso do celular em sala de aula. Ferramentas – microcomputadores, lousas digitais e etecéteras - são apenas isso: ferramentas. Pesa, no entanto, a percepção sobre como lidar com crianças e adolescentes cuja carga de informação, não raro, é superior à do professor.

O que este último tem como vantagem e deve explorar é a habilidade no manejo do conhecimento, a competência para selecionar, organizar e dar sentido às informações. Na Europa, pesquisas mostram que a primeira “geração Net” chegou às universidades já há dez anos. Desde então, tudo mudou – inclusive a tal “geração Net”.

Mas algo permanece: estes alunos ainda têm vontade de aprender. Possuem objetivos. São pragmáticos, isto é, querem foco no aprendizado; desenvolvem formas distintas de pensar, de se comunicar e apreender informações. Buscam ambientes desafiadores, exigem retorno (o tal “feedback”, isto é, querem saber como estão e o que vão fazer com o conhecimento). São “multitarefa”, isto é, conseguem fazer várias coisas ao mesmo tempo – e disso decorre também uma redução no tempo médio de atenção durante a aula.

O mesmo estudo detectou que o aluno, ao reclamar da aula “chata”, na verdade diz: “tenho muitas coisas a fazer e pouco tempo”. E não é exagero: a carga de informação e de opções disponíveis nunca foi tão grande e tende a aumentar. Essa geração Net representa hoje nada menos do que 7% de toda a população mundial.

O impacto no manejo da informação e do conhecimento, como é de se supor, é imenso e inclui outros obstáculos. Entre os já detectados estão um senso de imediatismo, a “lei do menor esforço” e a falta de aprofundamento nos assuntos discutidos. Não tanto por preguiça ou comodismo, mas estarem submetidos a um sistema que possui tais características.

É impossível desprezar isso e acreditar que as aulas ainda devem ser como há dez, vinte ou cem anos. Ninguém vai substituir imediatamente o ambiente na sala de aula e nem esta apenas é a solução. Mas pensar metodologias mais desafiadoras, estimular práticas de aprendizado em grupo e utilizar as informações e as habilidades do aluno pode ser um bom começo.

Clique aqui para ler as pesquisas citadas neste artigo

(Publicado originalmente no jornal Comércio do Jahu)

quarta-feira, 18 de julho de 2007

O apocalipse

Já sinto cheiro de enxofre, ouço o ranger dos dentes e os gritos de horror e desespero. O fim está próximo e, como profetizado - ops, quer dizer, comentado - em artigo anterior, quando quase fui enviado à Guantánamo por fotografar uma poltrona subversiva às margens do Rio Jaú, o apocalipse não virá pelas mãos dos mouros, de anjos munidos de foices ou similares.
O Juízo Final será perpetrado por turbas insuspeitas, a começar pelos fotógrafos amadores. Mais um teve questionado o ameaçador hábito de andar por aí com uma câmera: Keith MCammon, blogueiro e fotógrafo norte-americano, abordado por um policial no Condado de Arlington, Virgínia.
O motivo: segundo o policial, ele estava com a câmera numa área de "alta segurança", em frente ao prédio da Agência de Pesquisa de Projetos Avançados, do Departamento de Defesa americano.
Detalhe (incluído por ele na queixa feita no departamento da polícia local): o edifício não possui qualquer identificação.
Aí, realmente fica difícil.
Em tempo: ironia ou não, há um filme chamado "O suspeito da Rua Arlington", sobre um cara que se passa por engenheiro mas na verdade é o maior terrorista. Provavelmente o policial o havia visto na noite anterior.....