quarta-feira, 11 de abril de 2007

Pit stop

Final do dia, começo da madrugada. 1h09. A vida online cresce e não por conta do horário. Esse, aliás, é um dos truques: não há mais horários. Tanto faz às 8h23, 16h31 ou 2h15. Tudo é sempre agora. Este blog não termina quando eu o deixo, desligo o micro e morro por algumas horas, boiando em sonhos que nem sei se são meus. Há o monitoramento, visitas, comentários. Não o fazem permanecer?
Aos poucos, nada passa a depender de nada, já que tudo está: conectado, reagindo, registrando, respondendo (e-mails com respostas automática não o fazem a qualquer momento?), enviando, suspeitando, enviando e recebendo.
Bibliotecas com horário de funcionamento? Não mais. Apostas na megasena no meio da insônia? Perfeito. Flores? Já é. Acabo de encontrar um site com resumos e resenhas. Dá até para ganhar um troco oferecendo o que muitos não conseguem sequer de graça.
Aos poucos, tornamo-nos uma gigantesca conveniência 24 horas.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

Escreveu, não leu, mas vendeu....

Curioso, mas não incomum. Bastante recorrente, aliás, em tempos de muito business e pouca leitura.


O vendedor Nirso!!! CENÇASSIONAL!!!

O gerente de vendas recebeu o seguinte fax de um dos seus novos vendedores:
"Seo Gomis o criente de Belzonte pidiu mais cuatrucenta pessa. Faz favor toma as providenssa, Abrasso, Nirso."

Aproximadamente uma hora depois, recebeu outro:"Seo Gomis, os relatório di venda vai xega atrazado proque to fexando umas venda. Temo que manda treis miu pessa. Amanhã tô xegando. Abrasso, Nirso."

No dia seguinte:

"Seo Gomis, num xeguei pucausa de que vendi maiz deis miu em Beraba. To indo pra Brazilha. Abrasso, Nirso."

No outro:

"Seo Gomis, Brazilha fexo 20 miu. Vo pra Frolinoplis e de lá pra Sum Paulo no vinhão das cete hora. Abrasso, Nirso".

E assim foi o mês inteiro.O gerente, muito preocupado com a imagem da empresa, levou ao presidente as mensagens que recebeu do vendedor. O presidente, um homem muito preocupado com o Desenvolvimento da empresa e com a cultura dos funcionários, escutou atentamente o gerente e disse:

- Deixa comigo, que eu tomarei asprovidências necessárias.

E tomou. Redigiu de próprio punho um aviso e fixou no mural da empresa,juntamente com as mensagens de fax do vendedor:

"A parti de oje nois tudo vamo fazê feito o Nirso. Si priocupá menos em iscrevê serto, mod vendê maiz.

Acinado,

U Prizidenti."

Quem??

"Porque, tipo assim, você fica mais você".
Essa foi, tipo assim, a resposta de uma, tipo assim, modelo-candidata-miss à pergunta sobre qual o motivo que a levou a optar por "intervenções estéticas" (cirurgias plásticas, implantes e congêneres). No caso, um silicone básico nos seios.
A moça não poderia estar mais coberta de razão.
Afinal, em tempos nos quais os 15 minutos de fama de Andy Wharol tornaram-se até um exagero, "ser mais você" talvez signifique isso: tornar-se o idealizado em vez de contentar-se com o estabelecido.
Sou mais eu quando mais adequado ao que busco ou esperam de mim; sou mais eu quanto mais formatado, quanto mais menos eu.

terça-feira, 3 de abril de 2007

Português para reuniões

Se o mundo vai acabar soterrado em papel, já não sei mais. Talvez um sumiço geral sob montanhas de panfletos anunciando descontos especiais em medicamentos idem, outros tantos garantindo "100% de satisfação" nos trabalho de alguma vidente qualquer. Enfim.
Só há uma certeza: antes de isso acontecer, há um exército de infelizes diariamente trancafiados em reuniões intermináveis sobre nada, horas escoando lá fora enquanto o mundinho do ar-condicionado define os rumos da civilização. Uma espécie de purgatório.
Pois eis a solução para, ao mesmo tempo em que se suporta o insuportável, ganhar alguns pontinhos com a chefia fazendo observações supostamente inteligentes sobre nada. Claro, sempre.
A tabela abaixo chegou por e-mail. Um curso rápido de "Technical Embromation". Perfeito. E mostra como um texto aparentemente sem erros pode, também, dizer...nada.
Combine as colunas sequencialmente (1-2-3-4) variando a posição vertical à vontade. E veja o resultado.


Coluna 1

Coluna 2

Coluna 3

Coluna 4

Caros colegas,

a execução deste projeto

nos obriga à análise

das nossas opções de desenvolvimento futuro.

Por outro lado,

a complexidade dos estudos efetuados

cumpre um papel essencial na formulação

das nossas metas financeiras e administrativas.

Não podemos esquecer que

a atual estrutura de organização

auxilia a preparação e a estruturação

das atitudes e das atribuições da diretoria.

Do mesmo modo,

o novo modelo estrutural aqui preconizado

contribui para a correta determinação

das novas proposições.

A prática mostra que

o desenvolvimento de formas distintas de atuação

assume importantes posições na definição

das opções básicas para o sucesso do programa.

Nunca é demais insistir que

a constante divulgação das informações

facilita a definição

do nosso sistema de formação de quadros.

A experiência mostra que

a consolidação das estruturas

prejudica a percepção da importância

das condições apropriadas para os negócios.

É fundamental ressaltar que

a análise dos diversos resultados

oferece uma boa oportunidade de verificação

dos índices pretendidos.

O incentivo ao avanço tecnológico, assim como

o início do programa de formação de atitudes

acarreta um processo de reformulação

das formas de ação.

Assim mesmo,

a expansão de nossa atividade

exige precisão e definição

dos conceitos de participação geral

segunda-feira, 2 de abril de 2007

quinta-feira, 22 de março de 2007

Do asfalto à fibra ótica

Não sei ao certo quantos éramos em 1994. Sítios desenvolvidos com tecnologia Flash e outras quinquilharias digitais, mesmo se existissem, provavelmente não rodariam nas conexões discadas a 56 kbps. Ou, se rodassem, demorariam um fim de semana inteiro para isso. Salas de bate-papo, e-mail e alguns portais eram praticamente obrigatórios. Mas havia algo mais: um caráter meramente anárquico, desorganizado mesmo. Uns experimentavam, outros acabavam perdidos, havia ainda quem visse ali oportunidades jamais concretizadas.
Em 1999, quando começou a se desenhar a explosão da internet, o Brasil contava com pouco mais de 2,5 milhões de pessoas conectadas. Três anos depois eram aproximadamente 7,7 milhões. Em 2007, o número de internautas brasileiros – eventuais e usuários constantes – poderá atingir 30 milhões de pessoas, dos quais metade já têm acesso pessoal (em casa ou no trabalho) à rede mundial. Somos o 11º país em número de usuários. Temos 18,3 milhões de computadores pessoais. Cinco milhões de brasileiros já utilizam acesso banda-larga e a média de navegação no País é de 14 horas e meia por mês.
Mesmo com tudo isso, foi inevitável lembrar da internet em 1994 em apenas uma hora de estrada rumo a uma universidade próxima. Por mera questão de traçado geográfico o caminho mais curto cruza, na maior parte da viagem, áreas rurais e pequenas cidades. Acostamento, quando surge, é precário e coberto por grama; a sinalização é apenas suficiente e o asfalto deixa a desejar.
Mas há sombra em boa parte da estrada. Árvores, grandes, algumas floridas; pequenas entradas para sítios idem, famílias em trajetos curtos à beira da estrada, vendedores disso e daquilo. Claro, inexiste a segurança pasteurizada e os postos com iluminação feérica das rodovias duplicadas, mas também não há pedágios, cãezinhos engaiolados e piscinas à venda, excessos visuais e econômicos.
Em “Zen e Arte da Manutenção de Motocicletas”, ao falar sobre a relação entre compreensão de mundo e temas como tecnologia, relações humanas, o autor diz que a maioria das pessoas não se arrisca a subir montanhas e, quando o fazem, descobrem que há vários caminhos.
O raciocínio vale para estradas e para a internet. Conexões banda-larga, acostamentos de sonho e várias pistas à disposição garantem, sem dúvida, conforto e segurança. Mas tanto conforto como segurança transformam-se em comodismo e inércia se excessivos e costumeiros. Ambos são meras ferramentas e não o serviço ou o trajeto em si.
Conexões melhores e computadores mais potentes têm servido, em boa parte, apenas para provedores e mascates eletrônicos venderem mais e mais caro seus produtos e serviços. Aos poucos, perdem visibilidade iniciativas independentes e inovadoras, portais desvinculados de interesses econômicos e mantidos apenas por quem acredita no tráfego livre de informações e na comunicação em escala mundial.
Estradas duplicadas mantidas por tarifas abusivas de pedágio, se oferecem alguns serviços supostamente sob a responsabilidade do Estado – afinal, paga-se IPVA – sacrificam a possibilidade do encontro com outras culturas em nome da velocidade e da pressa em chegar. A distância de um ponto a outro não ficou menor, apenas mais pobre. Em vez do vendedor de queijo, laranja ou pamonha, balcões refrigerados; em vez de sombra, faixas avisando que ou você obedece, ou vai ser dar mal, muito mal; em vez de paisagens diversas, a monotonia dos outdoors.
No entanto, nem tudo é ruim ou manipulado. Na internet, por exemplo, há Leminski, lunático camuflado de curitibano: “essa idéia/ninguém me tira/matéria é mentira”. Há consolo, pois, estradas não passam, ficam, mas saber como e por quais enveredar pode ser maior do que qualquer mentira.

(Publicado no jornal Comércio do Jahu em 22.03.2007)