quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Luz no fim do mundo

Há pouco, tentava consertar um lustre com um olho nele e outro no fim do mundo. Entrado em anos desde que ganhou o posto na sala de jantar, o dito cujo exigiu enfim certa manutenção. A hora não poderia ser pior, pois na tevê os arautos da desgraça alternavam entre o colapso iminente da economia planetária – quiçá, universal - e os riscos de sermos soterrados, mais hora, menos hora, por uma merecida chuva ácida que haverá de limpar da face da terra os pecadores todos.

A julgar pela histeria, os riscos de um overlapping financeiro nas bolsas, seguido de brutais elevações no spread dos principais bancos mundiais e combinado com variações cambiais regidas pelo horóscopo inca são uma ameaça muito mais severa do que a chuva ácida.

Presidentes e ministros correm à televisão acalmar velhinhas poupadoras e megainvestidores lustrosos, cautelosos ensaiam compras em massa de água mineral, pilhas e comida desidratada antes de fugir para as montanhas e abrigos nucleares.

Estupefato, tento decidir entre esconder documentos e um estoque de carne-seca na gruta ou finalizar o conserto do lustre.

Depois de três dias sem luz, acho que o fim do mundo pode esperar mais um pouco.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Desnovidades

Faz tempo que não apareço por aqui. Acho que é um pouco de bode da internet. Doze ou treze anos depois da primeira conexão, pouco me surpreende ou interessa de verdade. Tudo é um pouco mais do mesmo.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Retratos da barbárie

(Artigo publicado originalmente no jornal Comércio do Jahu em 29/11/2007)

O caso da garota presa no Pará em uma cela com 20 homens e o desabamento no estádio Fonte Nova, em Salvador, são, em boa parte, o retrato possível do Brasil hoje. A eles somam-se mais algumas aberrações deste trem-fantasma tupiniquim como a epidemia de dengue, que cresce em vez de diminuir, a leniência com políticos descaradamente confessos de maracutaias com dinheiro público e o aparente desprezo pelo mínimo de zelo necessário com a população.
Parece que estamos condenados a eternamente oscilar entre uma sessão nostalgia da Idade Média e a ânsia por nos mostrarmos uma nação moderna e com os pés no futuro. A verdade é que agarramos o atraso com as duas mãos, pois abandoná-lo significaria romper com nossa herança colonial e deixar o conforto da casa-grande. Teríamos de aprender como nos sentirmos mais responsáveis por nossas próprias escolhas e agir de acordo com isso. Não é à toa que pesquisa recente mostrou a vergonha como o sentimento mais comum de 37% dos adolescentes brasileiros diante da política, ao mesmo tempo em que pouco ou nada se mobiliza para mudar o quadro que aí está.
Não fosse assim, jamais aquela adolescente teria permanecido por tanto tempo na cela no Pará, sendo ignorada mesmo por quem, da rua, a via pedir ajuda; não fosse assim, não estaria a maioria dos estádios brasileiros sem condições de oferecer segurança aos torcedores.
Existe também outro indicador pernicioso e ao mesmo tempo sem qualquer relevância, por ter se tornado tão comum: por aqui, prevenir ou agir para evitar que as coisas piorem é algo reiteradamente esquecido. Ou é mero acaso o fato de que no caso do estádio da Fonte Nova nada se fez diante das ava-liações que alertavam para os problemas, e agora se fala em implodir o local? Provavelmente, oito mortos e diversos feridos seja um preço ainda pequeno para tanta incompetência.
Essa aparente incapacidade de pensar as responsabilidades individuais e coletivas é algo tão entranhado nesta salada tropical em que nos transformamos que permite até mesmo o cinismo de quem deveria zelar pela chamada coisa pública. Enquanto finalizo este artigo, leio texto da governadora do Pará, Ana Júlia Carepa, sobre o caso da adolescente mantida na cadeia. Ela diz que “no caso da adolescente, o governo tomou medidas imediatas”.
É ridículo e conduz a um raciocínio errado, pois parece que o único governo possível é o que existe nos gabinetes refrigerados, seja em Brasília, nas capitais estaduais ou em qualquer prefeitura. A polícia, se não pode ser chamada exatamente de governo, faz parte do Estado. E foi o mesmo delegado, um infeliz que levantou a suspeita de a garota ser mentalmente incapacitada por não ter “declarado maioridade”, que a manteve na cadeia. O Estado a manteve presa e a deixou ser estuprada pelos outros ocupantes da cela.
É também o Estado o único e principal responsável, por exemplo, quando não se cumprem normas mínimas legais para a dignidade do cidadão, como ao não se adequar o acesso de portadores de deficiência nas vias públicas – ou mesmo quando não se exige que empresas o façam em suas dependências. É o Estado a quem cumpre, além das campanhas contra a dengue, se for necessário forçar a entrada de agentes de fiscalização em locais onde eles sejam impedidos de trabalhar.
Perder a capacidade – ou jamais exercê-la - de avaliar e exigir respeito e eficiência por parte de qualquer governo revela, em parte, o grau de civilização a que chegou um povo. Não são necessá-rias grandes mobilizações, passeatas heróicas, enfrentamentos suicidas. Ações menores às vezes bastam, como participar do conselho escolar, utilizar ouvidorias e cobrar respostas dignas, além de procurar, se necessário, meios judiciais como as procuradorias. E, claro, fazer valer sempre algo tão simples quanto poderoso que é o voto.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

O cúmulo do acúmulo

Caro ministro Nelson Jobim, esta semana encontrei uma declaração sua em notícia na internet da qual só não dá para dizer que “caiu do céu” porque ultimamente esta é uma piada de muito mau gosto. Dizia V.S.ª “que haverá problema de acúmulo” de passageiros nos aeroportos durante o feriado.

Pois ora, veja só, ilibado ministro, até onde vai meu pouco conhecimento sei que é possível acumular capital e fortuna, por exemplo; ou, ainda, acumular ações da Petrobrás - aliás, este um negócio tão bom que até o companheiro Chavez quer entrar na dança com uma tal petrolífera das Américas ou coisa que o valha. Também dá para acumular cargos, mas isso, tenho certeza, o governo que o emprega não autoriza nem pratica; há quem acumule livros, um hábito sensacional não fossem eles feitos para passar de um leitor a outro em vez de ficar guardados.

Agora, com toda sinceridade, ministro, gente não se acumula, a não ser naqueles vagões hediondos em que os nazistas transportavam prisioneiros para os campos de concentração, ou nas valas comuns em que se acumulavam corpos e sonhos desfeitos a base de cal.

Gente, ministro, às vezes simplesmente sofre, e por diversos motivos. Um deles, ao menos nos últimos tempos, é a inépcia de quem cobra impostos e não os devolve em forma de serviços razoavelmente bem prestados. Exemplos não faltam, e estes sim podem até se acumular. São aposentados que sofrem com processos intermináveis e se tornam vítimas fáceis dos piratas do crédito consignado (autorizado oficialmente pelo mesmo governo para o qual o senhor trabalha, inclusive um banco para quem um romântico senador facilitou a entrada neste mercado bastante interessante); são consumidores engambelados por companhias telefônicas cujo atendimento é instantâneo na hora da venda, mas torna-se incrivelmente moroso e difícil quando, por direito de consumidor, se tenta cancelar qualquer produto ou serviço; ou ainda jovens que acumulam déficits impensáveis na escola por conta de políticas tortas em educação.

Enfim, a lista de acúmulos muito piores do que passageiros à espera de um avião é bastante razoável.

Contudo, prestativo ministro, sua esclarecedora previsão de caos nos aeroportos nos dá a chance de perceber algo importante, que é como todos somos vistos pelas “otôridades”. Cidadãos que tentamos ser, nos resta apenas a condição de coisas. Porque coisas se acumulam. Há também coisas que voam, como os familiares mortos na recente queda de um jatinho em São Paulo. Um brigadeiro da Aeronáutica comentou que o Campo de Marte, de onde o avião decolou, era vetado a autoridades por não oferecer todos os requisitos de segurança. Quer dizer, autoridade com cargo nomeado é mais gente do que os outros e não voa por ali por falta de segurança, mas o resto que se dane. Quem manda querer voar, ainda mais de jatinho?

Nem precisa ser apenas com jatinhos. Sugiro, intrépido ministro, que o senhor, além de visitar a Amazônia em uniforme camuflado (fico pensando qual será sua opção se for convidado a desfilar no carnaval carioca...), passe uma semana em ônibus de linhas circulares, especialmente em São Paulo. É um primor de acúmulos. Ou que acompanhe de madrugada as filas nas consultas do sistema público de saúde.

Talvez o senhor perceba que escolheu a palavra errada. Não é acúmulo. É o cúmulo, ministro.

(Publicado originalmente no jornal Comércio do Jahu em 14.nov.2007)

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Comunicação, vestibular e mercado

Esse povo gosta é mesmo de comunicar. Jornalismo é o curso mais concorrido no Fuvest 2008, com 41,63 candidatos/vaga na ECA (Escola de Comunicação e Artes). Tudo bem, são poucas vagas (apenas 60) e o número total de inscritos é menor do que em Medicina, também na USP (12.973 candidatos), mas ainda mostra o vigor e a excelência da maior universidade do País.
Em que pese a crise no setor de comunicação, com mais veículos disputando as mesmas verbas publicitárias e, em alguns casos, excesso de profissionais no mercado, o que se vislumbra é o crescimento das oportunidades.
A questão, no entanto, parece ser a encruzilhada na qual está o setor: jornais procuram alternativas para não perder leitores; blogs ainda ensaiam uma postura mais firme como referenciais de informação, mas ainda são incipientes; veículos tradicionais da mídia eletrônica, como a tevê e o rádio, tentam encontrar um casamento ideal com internet e redes de celular mas ainda não firmaram um formato que se prove estável e lucrativo.
Em todo esse meio de campo ficam jornalistas, publicitários e toda essa fauna que caminha das redações aos estúdios, dos meios ditos reais aos virtuais. Ainda falta um tanto para saber no que vai dar.
A matéria do Estadão online sobre o Fuvest 2008 está aqui.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Cai, cai, balão....

E mais essa, agora: o zeloso brigadeiro Ramon Borges Cardoso, diretor do departamento da Aeronáutica responsável pelo controle de tráfego áereo, disse que autoridades não decolam ou aterrissam no Campo de Marte pois há um rigor maior nos vôos com ministros e outras personas federais.
Não é ótimo saber que a pouca segurança por ali sequer preocupa as "otôridades" quando é apenas a plebe que utiliza o Campo de Marte? Bem entendido: uma plebe branca, bem instruída e bem nascida, capaz de voar em jatinhos. E podem utilizar um local vetado aos manda-chuvas porque segurança, mesmo, só vale para eles.
Sintomático da esbórnia em vigor nesse país há uns meros 500 e poucos anos. Ilustra bem essa indolência tupiniquim com o descaso, a falta de pulso em cobrar e exigir um pouco mais de respeito e consideração. Vamos mesmo nesse passo, com aviões caindo, acordos amigos e benfazejos para a Bolívia, as tarifas públicas nas alturas e as tropas de elite rosnando umas para as outras.

Em tempo: avião é bolinho. Dê um rolê durante algumas semanas nos ônibus paulistanos e veja a maravilha que se tornou o sistema com a redução de frota e mudanças nas linhas.

domingo, 4 de novembro de 2007

Madrugada

Ouvir Miles Davis torna tudo o mais desnecessário. E na maior parte do tempo, exercitar o desnecessário é a única coisa importante a fazer, a salvação de toda loucura, o anti-infarto, a saída pela esquerda.
É quando a noite desce sobre o coração feito chuva fina de madrugada, cheirando a orvalho fresco e aos cachorros vagabundos que não buscam nada em ruas adormecidas; é quando se pede perdão por não se pedir perdão quando há alguém para escutar, quando todo texto termina assim, sozinho, por conta própria.