quarta-feira, 25 de julho de 2007

Aprender, ensinar e aprender de novo

"Não dormi porque fiquei com dó”.

Esse foi o comentário de um aluno sobre palestra realizada havia poucos dias e surpreendeu menos pelo ineditismo e mais pela freqüência com que se ouvem frases desse tipo. Não é segredo que aumenta cada vez mais a distância entre as práticas escolares e a perspectiva e atitudes dos alunos. Mas afinal de contas, o que acontece? Onde está o ruído na comunicação entre professores e alunos? Há tantas teorias sobre o problema quanto propostas de solução, mas nenhuma parece dar conta de resolvê-lo.

Algumas pistas, no entanto, podem ajudar, como um caso ocorrido na Austrália: durante a aula, um professor admitiu não saber exatamente o que cangurus comem e se comprometeu a obter a informação para o dia seguinte. Um aluno disse não ser necessário esperar: ele poderia obtê-la “em instantes”. Provavelmente, acessaria a internet por meio do celular e além de um texto obteria um vídeo sobre o tema e, quem sabe, o compartilharia com outros colegas enviando o material em uma mensagem multimídia por correio eletrônico ou conexão sem fio.

Apesar disso, a escola continua sendo a escola. É onde o próprio aluno espera aprender algo útil, capaz de prepará-lo para o resto dos seus dias; é também local de interação social, onde ao lado de disciplinas básicas – língua, ciências naturais e matemática, ciências humanas – aprende-se a viver e a conviver com a diferença e a semelhança e a lidar com elas. É razoável imaginar que o problema não está em “o quê” (o conhecimento), mas no “como” se ensina.

Não é o caso de sair por aí queimando carteiras e lousas, distribuindo notebooks a cada aluno e liberando geral o uso do celular em sala de aula. Ferramentas – microcomputadores, lousas digitais e etecéteras - são apenas isso: ferramentas. Pesa, no entanto, a percepção sobre como lidar com crianças e adolescentes cuja carga de informação, não raro, é superior à do professor.

O que este último tem como vantagem e deve explorar é a habilidade no manejo do conhecimento, a competência para selecionar, organizar e dar sentido às informações. Na Europa, pesquisas mostram que a primeira “geração Net” chegou às universidades já há dez anos. Desde então, tudo mudou – inclusive a tal “geração Net”.

Mas algo permanece: estes alunos ainda têm vontade de aprender. Possuem objetivos. São pragmáticos, isto é, querem foco no aprendizado; desenvolvem formas distintas de pensar, de se comunicar e apreender informações. Buscam ambientes desafiadores, exigem retorno (o tal “feedback”, isto é, querem saber como estão e o que vão fazer com o conhecimento). São “multitarefa”, isto é, conseguem fazer várias coisas ao mesmo tempo – e disso decorre também uma redução no tempo médio de atenção durante a aula.

O mesmo estudo detectou que o aluno, ao reclamar da aula “chata”, na verdade diz: “tenho muitas coisas a fazer e pouco tempo”. E não é exagero: a carga de informação e de opções disponíveis nunca foi tão grande e tende a aumentar. Essa geração Net representa hoje nada menos do que 7% de toda a população mundial.

O impacto no manejo da informação e do conhecimento, como é de se supor, é imenso e inclui outros obstáculos. Entre os já detectados estão um senso de imediatismo, a “lei do menor esforço” e a falta de aprofundamento nos assuntos discutidos. Não tanto por preguiça ou comodismo, mas estarem submetidos a um sistema que possui tais características.

É impossível desprezar isso e acreditar que as aulas ainda devem ser como há dez, vinte ou cem anos. Ninguém vai substituir imediatamente o ambiente na sala de aula e nem esta apenas é a solução. Mas pensar metodologias mais desafiadoras, estimular práticas de aprendizado em grupo e utilizar as informações e as habilidades do aluno pode ser um bom começo.

Clique aqui para ler as pesquisas citadas neste artigo

(Publicado originalmente no jornal Comércio do Jahu)

quarta-feira, 18 de julho de 2007

O apocalipse

Já sinto cheiro de enxofre, ouço o ranger dos dentes e os gritos de horror e desespero. O fim está próximo e, como profetizado - ops, quer dizer, comentado - em artigo anterior, quando quase fui enviado à Guantánamo por fotografar uma poltrona subversiva às margens do Rio Jaú, o apocalipse não virá pelas mãos dos mouros, de anjos munidos de foices ou similares.
O Juízo Final será perpetrado por turbas insuspeitas, a começar pelos fotógrafos amadores. Mais um teve questionado o ameaçador hábito de andar por aí com uma câmera: Keith MCammon, blogueiro e fotógrafo norte-americano, abordado por um policial no Condado de Arlington, Virgínia.
O motivo: segundo o policial, ele estava com a câmera numa área de "alta segurança", em frente ao prédio da Agência de Pesquisa de Projetos Avançados, do Departamento de Defesa americano.
Detalhe (incluído por ele na queixa feita no departamento da polícia local): o edifício não possui qualquer identificação.
Aí, realmente fica difícil.
Em tempo: ironia ou não, há um filme chamado "O suspeito da Rua Arlington", sobre um cara que se passa por engenheiro mas na verdade é o maior terrorista. Provavelmente o policial o havia visto na noite anterior.....

domingo, 15 de julho de 2007

Liberdade, ainda que à tardinha

Esse povinho desinformado, pequeno burguês e com seus pseudo-pruridos morais devia é passar um tempo na favela antes de sair por aí acusando policiais de chacina nos confrontos do Rio de Janeiro. Não disse o probo Paulo Salim Maluf que bandido bom é bandido morto? Pois então. E tem mais: por que a polícia precisa cumprir a lei se os bandidos não a cumprem? Ué! Não é guerra? Os caras não estão lá pra receber todo mundo à bala? Bala de volta, oras. Mulheres e crianças? Ninguém pediu pra eles ficarem na linha de frente atrapalhando o trabalho dos outros. Quem mandou nascer pobre? O mesmo Maluf já não falou também que professora não ganha mal, mas é mal casada? É isso aí. A culpa é mesmo dessa gentalha que escolheu nascer com um pé na merda e outro na cova.
Aliás, como praticamente sequer nossos dignos e lídimos parlamentares não cumprem a lei, qual é o motivo para todos - eu, você, a polícia, o flanelinha ilegal, o muambeiro das feiras livres, as madames das filas duplas - termos de fazê-lo? Não tem vaga? Sem problema: estacione na calçada mesmo. Combustível adulterado? Com certeza não o é mais do que nossas maleáveis consciências. Subfatura nota fiscal? Fique tranquilo. Se o presidente do Senado pode fazer o que bem entende com as dele, qual é o problema com suas míseras notinhas?
Então, é isso: vamos a uma imensa e catártica locupletação. A primeira medida pode ser a distribuição gratuita de armas a todo maior de 18 anos, acompanhada da expressa recomendação de atirar para matar ao menor sinal de perigo, incluindo-se aí brigas de trânsito, troco errado na padaria e discussão no parquinho para ver qual criança vai subir primeiro no balanço. Não deixe ninguém vivo porque isso pode lhe valer um processo por, no mínimo, lesão corporal grave. Morto não constitui advogado.
Depois, aboliremos a preferência de idosos, gestantes e portadores de deficiência nas filas em geral; médicos do INSS deverão receber demissão sumária e todos os que pedirem aposentadoria por invalidez serão atendidos - mesmo quem ainda nem entrou no mercado de trabalho.
Emissoras de tevê estarão totalmente desobrigadas de seguir qualquer norma de classificação indicativa. Aliás, mais do que isso: serão encorajadas a exibir cenas tórridas de sexo, quase ginecológicas, logo na programação matinal. Nossas crianças crescerão mais bem informadas e passarão logo dos quadros de calouros nos quais fingem ser adultos idiotizados para programas de namoro e "ficação" ao vivo e em cores. Campanhas de cigarro e bebidas serão automaticamente liberadas para qualquer veículo e horário, podendo inclusive utilizar menores em seus nada convincentes filmes publicitários.
Vamos nos tornar, finalmente, o país do futuro: uma terra livre, inzoneira, onde a verdadeira democracia se traduz por liberdade geral e irrestrita, uma espécie de anarquismo tupiniquim, temperado com pólvora e doce como a cana-de-açúcar que vai avançar sobre outras culturas, tão desnecessárias quanto menos rentáveis nesse Brasil varonil.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Bloqueio mental

No começo era um tal de Verbo. Pelo menos, é o que dizem. Mas agora, assim, meio que no final, rola mesmo são uns verbos que nos fazem de bobos. Tipo os textos da campanha da Oi por um tal "bloqueio não" dos celulares pelas operadoras.
Há que se tirar o chapéu: tudo tem cara de uma extensa e bem intencionada campanha cívica (rufem os tambores!) pelo desbloqueio de aparelhos, mas é um tremendo blá-blá-blá da Oi. Pior do que os filmes comerciais são os "depoimentos" de artistas e descolados, falando do bloqueio como se houvessem encontrado o fim do arco-íris. Basicamente, ridículo. Feito o chato do Mion abaixo.
Bom mesmo é ter como princípios de vida as frases desse cara aqui, ó.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Mais do mesmo de novo outra vez

Dia de visita. Estamos na Francal, versão 2007, e tudo o que consigo ver é a mesma versão de sempre de outros tantos anos anteriores. Feira de "business" é boa pra quem quer business. De resto, as mesmas caras e pernas nas entradas dos estandes, os 'isspéérrrtos' jogando 'street' na quadra improvisada e, claro, a mesma profusão de econono-inglês: fazer um "approach" ou "alinhar as percepções" (esse sim, um misto de borracharia com pai-de-santo). O prêmio vai para o colega que intimou ao microfone: "aspirante Fulana", favor comparecer ao café. Aspirante? Ao que aspira uma aspirante? A poder chamar alguém algum dia de "aspirante"?
No mesmo estande um cartazete avisava: "Cadastramos prepostos. Necessária muita resistência física e mental" (!!!). Imagino que o candidato será incumbido de abrir o mercado afegão a tapas para então inundá-lo com sandálias de borracha ou, no mínimo, montará uma loja flutuante no delta do Nilo.
Há boas idéias, embora raras. Uma delas é a marca 1001 Retalhos, cujo trabalho com bolsas consegue mostrar um Brasil mais interessantes. Todas as criações possuem temas regionais, como São Paulo, Árvores do Brasil e os modelos em patchwork com representações folclóricas (banda de pífaros, Boi Bumbá, etc. Uma das sócias, Ana Paula, diz que a idéia é justamente mostrar o "bom Brasil", isto é, a cultura longe apenas da inzonice, da malemolência, do apelo sexualizado. O trabalho ficou muito legal e pode ser visto aqui.

terça-feira, 10 de julho de 2007

Como ser enganado e ainda pagar por isso

Eles estão chegando. Na verdade, estão entre nós há algum tempo, mas a coisa toda parece ter degringolado de vez.
Não, não são alienígenas. Esses deixaram de causar medo desde a explosão dos implantes de silicone e das plásticas radicais. Para quem sobrevive a encontrar mulheres de cavanhaque - tamanho o repuxo -, ETs são fichinha.
A "questã" são os manuais para praticamente tudo, que já são uma ameaça tão séria quanto pouco levada a sério. Percebeu? Semanalmente são dezenas, talvez centenas de mensagens em cada caixa postal: "Torne-se um líder agora!", exige um deles; "Sua vida como você sempre quis!", vaticina outro (pausa: deveria cair de joelhos e orar em direção a Meca por alguém ser tão solícito a ponto de não só saber qual vida eu gostaria, mas de me ensinar a obtê-la! Graças, hosana!); "Seja seu próprio patrão", suplica ainda outro, provavelmente isento de qualquer sarcasmo, ironia ou pura sacanagem por dizer isso no Brasil, onde empregos pululam nas esquinas e vagas milionárias surgem todos os dias.
Acabaremos num grande manual, sem dúvida. Daqui a pouco lançam "Como entender manuais: guia prático em 12 lições". Aliás, números são cabalísticos. Todos ensinam tudo em 7 ou 12 passos, infalivelmente. Ao menos para quem os escreve, pelo menos, que enche as burras com o dindin dos crédulos, quer dizer, dos futuros líderes, visionários e profetas. Duvida? O termo "em 7 lições" retornou em uma pesquisa básica 279 endereços no Google, que subiram para 1.850 com "em 12 lições". Muito bem. Estamos devagar, precisamos mais de 12 passos do que 7. Vou lançar um manual sobre isso: "Como fazer em 7 passos o que os outros conseguem em 12".
Tudo é muito explicadinho, não? "Quer emagrecer? Me pergunte como". Aí, você pergunta e pimba: além do manual, há que comprar mais ou menos 94 quilos de shakes com sabores ótimos como artemísia, feno, cedro e outros seres encantados do reino vegetal.
E as dietas? "Barriga tanquinho com apenas 5 minutos por dia" (alguém devia prender o autor e toda a equipe de reportagem por esse tipo de coisa); "Dieta da Lua: emagreci 12 quilos em três meses" (e foi ver a lua cheia em algum sanatório); "Emagreça sem esforço" (claro, isso é fácil. Tento toda semana ficar milionário sem esforço. Ainda não consegui, mas eu chego lá).
Enfim.
Basta aguardar. Em breve, o incrível "Emagreça, seja seu patrão, torne-se um líder e cuide da sua vida em apenas 6 lições sem sair casa com apenas 5 minutos por dia". Nas melhores livrarias e bancas do universo.

sábado, 7 de julho de 2007

O ataque das poltronas subversivas

Eis a foto que poderia mudar a história de toda uma cidade, quem sabe da própria humanidade. Tremei, poderes constituídos! Ajoelhem-se todos os que têm culpa no cartório, no clube de tranca ou no Serasa! Fotógrafos amadores de todo o mundo espalharão o terror, a discórdia e o ranger de dentes por onde passarem.
É chegada a hora! O mundo vai acabar - e, pasmem, será por uma lente fotográfica.
Até que não seria totalmente ruim....
Leia o artigo completo aqui.